19/02/20

Nós matamos o Cão Tinhoso! - Luís Bernardo Honwana

Na infância somos expostos a pequenas e grandes crueldades. Algumas entendem-se mais tarde; às outras vamos nos habituando. Este conto é sobre as primeiras impressões e reacções a vários tipos de crueldade. 

O texto capta com engenhosa simplicidade a consciência de uma criança sensível e a sua susceptibilidade à manipulação. É interessante ver como o diálogo, usando toda a escala cromática da hierarquia local, vai influenciando o rumo dos acontecimentos :

— Não atires a matar, estás a ouvir? Mas se quiseres, podes atirar... Sabes, é só porque tu estavas todo cheio de cagufa e era preciso mostrar à malta que não és maricas. E por isso que tu és o gajo que vai dar o primeiro tiro... Eu se fosse a ti atirava a matar e despachava o gajo logo... Não há azar nenhum nisso, foi o Senhor Duarte que mandou... E assim poupavas o trabalho à malta.

A morte do cão foi decidida no momento em que o Veterinário deu um capote ao Administrador na sueca – e é só uma arbitrariedade entre muitas.

Sem comentários:

Publicar um comentário