19/11/19

Bitter Moon - Roman Polanski


Hugh Grant é o melhor basbaque do cinema e eu sou uma autoridade em basbaques.

(O Ramires escreveu sobre este filme aqui.)

For Bread Alone - Mohamed Choukri

É uma história de várias pobrezas, sendo a pobreza das decisões do narrador uma das mais interessantes.

We were in the Café Chato, and I had just lost my last centimo playing aaita. When we had begun to play, twenty-five pesetas left, and el Kebdani told me: This isn’t your lucky day. Stop playing. Don’t worry about me, I told him sharply. I can manage myself and my money. Now, a little after noon, el Kebdani had just lent me five pesetas. I bought three pesetas’ worth of kif and paid two for a glass of green tea.


O pão, de resto, parece ser o menor dos problemas do narrador.

18/11/19

A High Wind in Jamaica - Richard Hughes

As crianças caiem acidentalmente nas mãos dos piratas; e os piratas, mostrando uma certa falta de orgulho profissional, não parecem querer ser os piratas que as crianças imaginaram.

You would have thought that supper on the schooner that night would have been a hilarious affair. But, somehow, it was manqué.

A consciência das crianças revela-se sobretudo na sua ausência. Cativos mas sempre procurando ser cativados por piratas pouco dados ao entretenimento, chegam a aborrecer-se, e acabam por ser a perdição destes piratas simpáticos. 

O tom jocoso do livro não pretende velar a crueldade de muitas acções, mas acentuá-la, analisando por imitação o psiquismo dos pequenos personagens.

11/11/19

Game of Thrones, S8


Comecei a ver a série por uma questão de convivialidade e acabei de ver sabe-se lá por quê. Fast forward x2, x4, x2. Fim. 

14/10/19

Os Cantos de Maldoror - Comte de Lautréamont, trad. Manuel Freitas

Sou o filho de um homem e de uma mulher, segundo me disseram. Isso espanta-me... julgava ser algo mais!

Rorty questiona, a certa altura, o que é que os filósofos acrescentam a Wordsworth. Rorty escolhe muito poeticamente Words+worth, dando assim a sua resposta. Os poetas parecem intuir o que os filósofos querem explicar.

Lautréamont intuiu muito bem o que Freud viria a explicar. (Freud é agora mais apreciado como poeta do que como pensador, mas isso é outra história.) Vê-se sobretudo uma imaginação muito viva à volta de si mesma, e pouca vida; a "perversidade" compensativa dessa imaginação contribui para a imagem do poeta à part, que ainda impressiona muitos adolescentes e o adulto que traduziu esta obra.

Resta a poesia, que é a melhor maneira de utilizar a histeria, como dizia Pessoa, e é bem melhor do que andar aos berros na rua.

02/09/19

imerecidas férias



Ainda ando a sacudir areia do corpo (da cabeça já nem tenho esperança). Os grãos de areia e os pixels do ecrã contribuem para uma sazonal erosão da paciência do vosso "digital influencer" preferido (business inquiries: offely-ir@hotmail.com). Volto, farto de cus e comentários, até o próximo Verão.  

Há, no entanto,  cus e comentários que não aborrecem: o meu amigo Pedro Ramires escreveu um belo texto sobre o mektoub, my love no salão indiano. Leiam.

04/07/19

The Poetic Edda

Why do you sit, why do you sleep away your life?

Esta pergunta de Gudrun, uma Medeia nórdica, tem uma resposta fácil. As personagens, quando não estão a beber cerveja, estão a morrer ou a receber notícias da sua morte. Entre deuses, runas, cervejas, anéis, dragões, anões e gigantes, está o homem, e não parece estar muito bem; a glória e o bom senso são elogiados, mas ter bom senso parece arruinar qualquer hipótese de glória.

12/06/19

A Menina Morta - Cornélio Penna

É a história de um modo de organização social moribundo, que persiste só porque os organizados não conhecem outro modo. Está tudo às portas, e a  morte da menina é apenas a perda da última réstia de inocência. 

As personagens  usam frequentemente os títulos funcionais na hierarquia (menina, Sinhá, comendador, mucamba, prima), em vez de nomes, perdendo assim individualidade, mas mantendo o seu lugar. Não é por isso surpreendente que o drama interior seja o único espaço individual do romance, e o  mais interessante. O drama exterior é disfarçado com rendas de Malines, festas e rituais, que não disfarçam nada mas ajudam a passar o tempo. As mulheres, sobretudo, vivem neste estado de prisão paramentada, em que as figuras de poder são coisas distantes e abstractas; sabe-se que existe um pai que é Comendador e uma Côrte com certas funções, mas nunca se chega a perceber quais são.

A minuciosa acumulação de tristezas faz lembrar Thomas Hardy.

29/05/19

Tu Sabes Que Queres - Kristen Roupenian


Uma sandes de merda. Literatura para a malta do twitter.

22/05/19

The Prime of Miss Jean Brodie - Muriel Spark

Miss Jean Brodie é daquelas figuras marcantes, inesquecíveis, que não são marcantes, nem inesquecíveis, mas que apenas beneficiaram de serem as primeiras do género. Mais tarde, encontramos pessoas iguais, mas já não é novidade. 

Brodie usa o seu narcisismo como método educativo. Educou bem, mas não bem como queria. 

O estilo fluído e espirituoso dá uns tons róseos ao que é sobretudo uma história de manipulação, crueldade associativa e mediocridade romantizada. 

Prémios literários

É começar a pegar nas guitarras, malta.

21/05/19

Pulp Fiction - Quentin Tarantino


Decidi encher-me de verborreia, antes de ver uns filmes mudos que aqui tenho. Não esperava ficar cheio aos 30 minutos.

17/05/19

um programa de fitness para as redes sociais

Andei aqui a pensar num plano de treinos para os leitores do blog, porque me preocupo imenso com a vossa saúde!

Vários estudos referem os benefícios de fazer 50 agachamentos diariamente. O problema é a falta de motivação, não é?  Mas eu tenho a solução:

1- Use a sua rede social preferida.

2- Identifique o indivíduo que está a sempre a falar de Game of Thrones  e outros temas da chamada actualidade. Fácil até agora, não?

3- Encontre o indivíduo no seu habitat natural. (Dica: procure em locais exóticos na decoração, e perfeitamente normais no resto.)

4- Convença o indivíduo a deitar-se no chão de barriga para cima. (Dica: use um tapete de yoga, resulta quase sempre. Em caso de resistência, diga que é um social experiment.)

5- Esta é a parte difícil: alinhe o seu períneo (a zona entre o saco escrotal/parte inferior da vulva e o ânus) com o nariz do indivíduo, de maneira a que do agachamento resulte o contacto entre nariz dele e o seu períneo. Não se preocupe se não acertar à primeira, apenas ajuste a sua posição e repita o agachamento até conseguir o efeito desejado.

6- Divirta-se! Já se sente certamente motivado, mas pode sempre melhorar a experiência. Por exemplo, peça ao individuo para fazer um cover do Bob Dylan.

Bons workouts, people!

06/05/19

Berserk vol. 1 - Kentauro Miura, trad. Jason DeAngelis


Disseram-me que Miura era o Homero do género. Não sei, mas sei que não quero saber quem é o Manuel Alegre do género. O preto e o branco dos desenhos são a única nuance do livro. 

(Também me disseram que isto começa a ficar bom no vol. 4, enfim, vou ler.)

Adenda (1): o vol. 2 não é melhor.

Adenda (2): o vol. 3  é um pouco melhor; ainda assim, uma merda.

Adenda (3): bom, não podem dizer que não tentei. Este dois últimos volumes são menos maus do que os primeiros, valha a verdade. Acaba aqui a experiência, não é para mim

02/05/19

A Lição - Eugène Ionesco, trad. Ernest Sampaio

Nesta peça confrontam-se a estupidez perfeitamente natural da aluna e a estupidez escolástica do professor. À substituição de uma estupidez pela outra podemos chamar Educação; à morte da aluna podemos chamar processo civilizacional. (Isto talvez seja uma generalização grosseira, porque a peça joga com vários não-sentidos para ter um sentido único. Aliás, o discurso anti-institucional é agora uma das mais altas artes institucionais com elevada taxa de empregabilidade, o que dá outros sentidos à peça.)