25/03/20

Ich bin die Andere - Margarethe von Trotta


Começa de maneira absurda. A certo ponto, as acções absurdas começam  a fazer sentido. Depois, nem tanto. Finalmente, mais acções absurdas concorrem para justificar o final absurdo. Faz sentido. 

24/03/20

Synonymes - Nadav Lapid


Outro para o maneta. Outra reflexão sobre identidade, sobre o desespero. Senti o desespero na pele, infelizmente.

23/03/20

Três Horas Esquerdas - Daniil Kharms

(...) não participa da monstruosidade do que hoje se chama sentido.

Adorno

Peças que se  lêem como sketches absurdos, breves e intensos. Lembra Ionesco, algo de Stoppard e os estrambóticos jogos surrealistas. 

22/03/20

Partial List of People to Bleach - Gary Lutz

Ah, well, what you cannot correct you can at least insult...

Barry Hannah

A vida acontece aos narradores destas histórias em lapsos de segunda importância (opinião deles). Ganham maior dimensão as experiências parciais, os nojos privados e as colecções de inconsequências. Se calhar a vida é isto. Também isto.

As frases são precisas e contrastam com a imprecisão geral:

«This being my history, I snapped out of my marriage, pieced myself back into the population, prodded and faulted, saw red, then wed anew in wee ways.»

O livro está cheio de frases citáveis:

«His point of view was exactly that—a speck, something too tiny to even flick away.»

«The woman drank liquored sodas that brought something flowerful into her voice: words were now petally with extra syllables.»

O livro é rematado por The Sentence is a Lonely Place, que é uma reflexão sobre a frase e uma ars poetica:
(...) narratives of steep verbal topography, narratives in which the sentence is a complete, portable solitude, a minute immediacy of consummated language—the sort of sentence that, even when liberated from its receiving context, impresses itself upon the eye and the ear as a totality, an omnitude, unto itself.

20/03/20

Upstream Color - Shane Carruth


Um filme que abusa da intuição "isto está tudo ligado", mas sem as conclusões óbvias do costume. Acaba por ser uma experiência poética interessante.

19/03/20

Possession - Andrzej Zulawski


Confesso que pensei que era uma paródia dum género de filme que não conheço. Há, de facto, algum humor escondido na neurose. Mas talvez seja apenas uma reflexão sobre a separação: um divórcio, o muro de Berlim, os duplos, os desmembramentos...

Um filme que pede mais do que dá.

18/03/20

Lavoura Arcaica - Raduan Nassar

(...) mas tu tens a fronte de uma prostituta, e não queres ter vergonha.

Jeremias 3:3

A segunda razão é que o cão é um animal sem pudor, e os cínicos fazem um culto à falta de pudor, não como sendo falta de modéstia, mas como sendo superior a ela.


Je suis l'Empire à la fin de la décadence,
Qui regarde passer les grands Barbares blancs
En composant des acrostiches indolents
D'un style d'or où la langueur du soleil danse.

Paul Verlaine

O narrador dá logo a entender que não está para satisfazer as vontades do leitor, posto que esteja pronto para satisfazer a suas. Quanto prazer? Todo. Quando? Já. Para o narrador, claro; o leitor tem de esperar.

A prosa é densa, cheia de referências e sugestões sensuais. O exagero parafílico do narrador, o filho, é confrontado pelo comedido discurso do pai, que tende mais para o sapencial. O estilo – neste como em todos os casos – é uma questão de moral. O pai é todo rigor e regra, no seu tom bíblico; o filho, no seu estilo delisquescente, pensa nas regras como peias. A pedra angular de um é a pedra de tropeço do outro.

Nesta retorcida versão da história do filho pródigo, há incesto, zoofilia; há uma fome de tudo, que é uma uma fome de nada – é o desejo de aniquilação.

— Isso já não me encanta, sei hoje do que é capaz esta corrente; os que semeiam e não colhem, colhem contudo do que não plantaram; deste legado, pai, não tive o meu bocado. Por que empurrar o mundo para frente? Se já tenho as mãos atadas, não vou por minha iniciativa atar meus pés também; por isso, pouco me importa o rumo que os ventos tomem, eu já não vejo diferença, tanto faz que as coisas andem para frente ou que elas andem para trás.

17/03/20

The Duellists - Ridley Scott


A minha experiência limitada, neste tipo de códigos de honra implícitos, ajuda a entender o papel maior da obstinação e da estupidez nestes negócios da percepção. Os duelos, no filme, começam sem uma boa razão e não há boa razão que os pare. 

(Conheço um gajo que me olha de canto desde o sexto ano, não sei bem por que motivo. Ainda hoje sou obrigado a dar uso ao qué'queres, caralho? No filme, tudo parece pintado por Chardin e Fragonard; não realidade, não tenho essa sorte.)

16/03/20

Flights - Olga Tokarczuk, trad. Jennifer Croft

(...)the Earth is round, let us not be too attached, then, to directions. And this was understandable – to someone from nowhere, every movement turns into a return, since nothing exerts such a draw as emptiness.

«I can’t extract nutrition from the ground, I am the anti-Antaeus.» Lembrei-me das plantas aéreas ao ler isto. 

No livro a ideia a identidade não está tão ligada ao lugar como ao movimento; no entanto, há uma obsessão com a permanência: as relíquias religiosas, a plastinação, a escrita...

É mais elegante do que Énard e menos forçosa, nas ligações que sugere, do que Sebald, mas insere-se nessa tradição de recontadores ambulantes. O estilo vinhetista e as histórias entrecortadas deixaram-me com vontade de ler mais.

11/03/20

Ash is the purest white - Zhangke Jia


O velho e o novo, novos valores, modernização e tal. Uma senhora faz uma oração cristã antes de roubar o bilhete de identidade da personagem principal. Deve ser isso. 

(Não conheço a realidade chinesa, mas a descrição do grupo de gansters provincianos ou é correcta ou o mundo é incorrecto.)

09/03/20

The Irishman - Martin Scorsese


Um filme que se vê bem mas que passava bem sem ver. Não acrescenta nada.

05/03/20

Atlantique - Mati Diop



 O ponto de vista de Penélope.

04/03/20

High Life - Claire Denis


Os actores ainda tentaram salvar isto, mas foram condenados (como os personagens) a explorar o vácuo.