Isto começou com risos de criança, em risos de criança há-de acabar.
Rimbaud
Rimbaud é uma bandeira que muitos juraram mais pelo brasão do que pelo que representa, como, de resto, grande parte das bandeiras electivas. Quanto mais gente se sente representada por uma bandeira, menos representa ela alguma coisa: ficam as interpretações pessoais e as colecções de outono/inverno.
É um livro fértil em lemas inteligentes para justificar coisas insensatas e eu teria poupado muito trabalho à minha estupidez natural se o tivesse lido mais cedo. (Digo insensatas porque o mundo é como é e não vale a pena estrebuchar muito quando se pode dançar.) Há ali coisas que poderiam ter sido fatais, se lidas na altura certa:
(...) Temos fé no veneno. Sabemos dar a nossa vida inteira todos dias.
Eis o tempo dos ASSASSINOS.
Alguns poemas são representativos desse fenómeno citadino que é a poesia pastoril. Quem desespera na cidade, desespera até nos locais mais geórgicos; o desespero só tem um nome, e o resto é paisagem. Mas o desespero de Rimbaud não pode ser mapeado tão facilmente: «Abomino todos os modos de vida.»
Este livro evoca também muitas coisas que preferia esquecer. Os poemas tardios precoces de Rimbaud já cheiram ao meu estado de palinódia permanente:
Depois, explicava os meus sofismas mágicos com a alucinação das palavras!
Acabei por sacralizar a desordem do meu espírito.
É muito importante esquecer isto.
Poderia ainda falar da importância histórica e tal, mas deixo as considerações notariais para gente com mais vocação.
***
Nota: Cesariny é o tradutor; o pequeno pedaço de prosa, que ele escreve neste livro, vale bem a pena.
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