14/10/19

Os Cantos de Maldoror - Comte de Lautréamont, trad. Manuel Freitas

Sou o filho de um homem e de uma mulher, segundo me disseram. Isso espanta-me... julgava ser algo mais!

Rorty questiona, a certa altura, o que é que os filósofos acrescentam a Wordsworth. Rorty escolhe muito poeticamente Words+worth, dando assim a sua resposta. Os poetas parecem intuir o que os filósofos querem explicar.

Lautréamont intuiu muito bem o que Freud viria a explicar. (Freud é agora mais apreciado como poeta do que como pensador, mas isso é outra história.) Vê-se sobretudo uma imaginação muito viva à volta de si mesma, e pouca vida; a "perversidade" compensativa dessa imaginação contribui para a imagem do poeta à part, que ainda impressiona muitos adolescentes e o adulto que traduziu esta obra.

Resta a poesia, que é a melhor maneira de utilizar a histeria, como dizia Pessoa, e é bem melhor do que andar aos berros na rua.

02/09/19

imerecidas férias



Ainda ando a sacudir areia do corpo (da cabeça já nem tenho esperança). Os grãos de areia e os pixels do ecrã contribuem para uma sazonal erosão da paciência do vosso "digital influencer" preferido (business inquiries: offely-ir@hotmail.com). Volto, farto de cus e comentários, até o próximo Verão.  

Há, no entanto,  cus e comentários que não aborrecem: o meu amigo Pedro Ramires escreveu um belo texto sobre o mektoub, my love no salão indiano. Leiam.

04/07/19

The Poetic Edda

Why do you sit, why do you sleep away your life?

Esta pergunta de Gudrun, uma Medeia nórdica, tem uma resposta fácil. As personagens, quando não estão a beber cerveja, estão a morrer ou a receber notícias da sua morte. Entre deuses, runas, cervejas, anéis, dragões, anões e gigantes, está o homem, e não parece estar muito bem; a glória e o bom senso são elogiados, mas ter bom senso parece arruinar qualquer hipótese de glória.

12/06/19

A Menina Morta - Cornélio Penna

É a história de um modo de organização social moribundo, que persiste só porque os organizados não conhecem outro modo. Está tudo às portas, e a  morte da menina é apenas a perda da última réstia de inocência. 

As personagens  usam frequentemente os títulos funcionais na hierarquia (menina, Sinhá, comendador, mucamba, prima), em vez de nomes, perdendo assim individualidade, mas mantendo o seu lugar. Não é por isso surpreendente que o drama interior seja o único espaço individual do romance, e o  mais interessante. O drama exterior é disfarçado com rendas de Malines, festas e rituais, que não disfarçam nada mas ajudam a passar o tempo. As mulheres, sobretudo, vivem neste estado de prisão paramentada, em que as figuras de poder são coisas distantes e abstractas; sabe-se que existe um pai que é Comendador e uma Côrte com certas funções, mas nunca se chega a perceber quais são.

A minuciosa acumulação de tristezas faz lembrar Thomas Hardy.

29/05/19

Tu Sabes Que Queres - Kristen Roupenian


Uma sandes de merda. Literatura para a malta do twitter.

22/05/19

The Prime of Miss Jean Brodie - Muriel Spark

Miss Jean Brodie é daquelas figuras marcantes, inesquecíveis, que não são marcantes, nem inesquecíveis, mas que apenas beneficiaram de serem as primeiras do género. Mais tarde, encontramos pessoas iguais, mas já não é novidade. 

Brodie usa o seu narcisismo como método educativo. Educou bem, mas não bem como queria. 

O estilo fluído e espirituoso dá uns tons róseos ao que é sobretudo uma história de manipulação, crueldade associativa e mediocridade romantizada. 

Prémios literários

É começar a pegar nas guitarras, malta.

21/05/19

Pulp Fiction - Quentin Tarantino


Decidi encher-me de verborreia, antes de ver uns filmes mudos que aqui tenho. Não esperava ficar cheio aos 30 minutos.

17/05/19

um programa de fitness para as redes sociais

Andei aqui a pensar num plano de treinos para os leitores do blog, porque me preocupo imenso com a vossa saúde!

Vários estudos referem os benefícios de fazer 50 agachamentos diariamente. O problema é a falta de motivação, não é?  Mas eu tenho a solução:

1- Use a sua rede social preferida.

2- Identifique o indivíduo que está a sempre a falar de Game of Thrones  e outros temas da chamada actualidade. Fácil até agora, não?

3- Encontre o indivíduo no seu habitat natural. (Dica: procure em locais exóticos na decoração, e perfeitamente normais no resto.)

4- Convença o indivíduo a deitar-se no chão de barriga para cima. (Dica: use um tapete de yoga, resulta quase sempre. Em caso de resistência, diga que é um social experiment.)

5- Esta é a parte difícil: alinhe o seu períneo (a zona entre o saco escrotal/parte inferior da vulva e o ânus) com o nariz do indivíduo, de maneira a que do agachamento resulte o contacto entre nariz dele e o seu períneo. Não se preocupe se não acertar à primeira, apenas ajuste a sua posição e repita o agachamento até conseguir o efeito desejado.

6- Divirta-se! Já se sente certamente motivado, mas pode sempre melhorar a experiência. Por exemplo, peça ao individuo para fazer um cover do Bob Dylan.

Bons workouts, people!