21/03/19

O Silêncio dos Poetas - Alberto Pimenta

O público sabe que o assaltante de bancos costuma ser preso e entregue às autoridades competentes, e o poeta... não.

Alberto Pimenta

Alberto Pimenta propõe tratar a arte nos seus próprios termos, descartando as papas instantâneas das lentes críticas, que servem sempre outros interesses. Parece-me muito bem. 

Depois, explica, com piada e erudição, que a poesia com intenção estética não pode ser interpretada de uma maneira normal, porque reduzir o anormal ao normal implicaria destruir o anormal. Essa poesia pretende a subversão do medium (a linguagem) e tende para o silêncio, para não ser refém da linguagem convencional. É muito interessante. Também muito interessante é o facto dos excertos teóricos serem quase sempre mais interessantes do que os resultados. Certos preceitos (neste caso, a ausência de preceitos), se levados a sério, podem levar a extremos em que liberdade é total mas em que ninguém quer lá estar. 

Fica-se com a sensação que todo o artista honesto caminharia para a sua própria linguagem, como  Joyce com Finnegans Wake. Felizmente, há pouca gente honesta no mundo. Parece-me que tudo o que vive do espanto (moderno) é de curta duração; por outro lado, tudo o que é eterno sofre o destino das estátuas: pátina e merda de pombo. Sejamos sérios, o mundo é uma comédia.

20/03/19

Revanche - Götz Spielmann



A deusa Némesis personifica o destino, o equilíbrio e a vingança (diz a Wikipédia); e némesis tanto pode ser a pessoa que quer vingança como o adversário. O filme apresenta-nos esta ambiguidade nos actos de um némesis e do outro, opostos mas semelhantes. Cumpridos o destino e a vingança, fica o equilíbrio: guardar maçãs para o inverno.

18/03/19

Slouching Towards Kalamazoo - Peter De Vries

And what rough beast, its hour come round at last, 
Slouches towards Bethlehem to be born?

Yeats

Há anticristos para todos os gostos (I João 2:18). Neste livro o anticristo (o narrador) vem sob a forma de um ponto de interrogação, de uma ambivalência quase patológica. A perversão é sobretudo retórica e de piada em piada, de acidente em acidente, ele consegue ser o anticristo que a sua Ulalume merece. Acaba como o pastor inútil (Daniel 11:21) de uma religião anti-religiosa. No fundo, tanto lhe faz.

07/03/19

Bonsai - Alejandro Zambra

(...) le reste est littérature, como escribió, con excelente literatura, Verlaine

Jorge Luis Borges

Al final Emilia muere y Julio no muere. El resto es literatura:

Alejandro Zambra

A seguir à citação célebre duma citação célebre vem um sinal ortográfico: a literatura já estava lá. Zambra enfileira mise en abyme atrás de mise en abyme, criando um efeito de dominó que resulta num romance que pretende ser outro romance que é o romance da vida dele que é o romance que estamos a ler. Até o mais baixo sexo é altamente literário e deve mais à leitura do que à experiência sexual (digo isto com a devida falta de experiência). 

06/03/19

Mr. Turner - Mike Leigh


Provavelmente é o filme de Leigh que concede mais ao Belo com maiúscula. É, estranhamente, o pior filme dele. Do seu tradicional feio-feio passa ao feio-belo sem ganhar muito com o contraste: não acrescenta complexidade, só acrescenta.

04/03/19

In a Time of Violence: Poems - Eavan Boland

As in a city where the evil are permitted to have authority and the good are put out of the way, so in the soul of man, as we maintain, the imitative poet implants an evil constitution, for he indulges the irrational nature which has no discernment of greater or less...

Platão

Uma poesia em que o pedestre se enche de memória e expectativa, de passado e de futuro. Um vestido não é um objecto inanimado:
 
We dream a woman on a steamboat
parading in sunshine in a dress we know     
we made. She laughs off rumours of war.
She turns and traps light on the skirt.     
It is, for that moment, beautiful.

Alguns poemas parecem épicas das consequências das épicas dos actos:

A woman lying
across the Kells Road with her baby—
in full view. We had to go
out of our way
to get home & we were late
& poor Mama was not herself all day.

Gostei especialmente destes versos:

(...) To be the hostages ignorance
takes from time and ornament from destiny.
 Both.
To be the present of the past. To infer the difference
with a terrible stare. But not feel it. And not know it.

03/03/19

The Gashlycrumb Tinies - Edward Gorey


Estranha combinação: lenga-lenga e humor negro. Os desenhos também: bonitinhos mas mórbidos.

Futility - William Gerhardie

These people had endless troubles, and if you let yourself get involved in them you got endlessly involved.

Bernard Malamud

O elogio de Waugh fez-me ler o livro; o prefácio de Edith Wharton quase me fez desistir. Edith Wharton tem uma obra sólida à custa de algumas afectações e uma excelente primeira e última educação; a sua polida falta de imaginação não prejudica demasiado os romancetes, mas não ajuda a escrever ensaios.

O livro é sobre a vida russa vista por um russo-inglês, durante o período da revolução de 1917. O narrador vê-se envolvido nos problemas duma família russa e descobre um complexo sistema de parasitagem. O indeciso pater familias suporta toda a gente com dinheiro emprestado e a esperança numas minas de ouro, que nunca deram lucro. Nikolai está por um fio como o outro Nikolai, o czar. 

A comoção da revolução resumiu-se em festivas danças com tropas americanos. Toda gente está à espera de qualquer coisa e estar à espera é a única coisa. Entretanto, há sempre danças e conversas importantes:

Very perfect young men, very perfectly dressed, were conversing in very perfect intonations about love among monkeys. It struck me as delightfully human for diplomats.