27/07/20

Lerner de calças arregaçadas

Leaving the Atocha Station

Ben Lerner

Professione: reporter

Michelangelo Antonioni

Y será muy buena gimnasia para nuestra rígida manera de pensar imaginarnos de vez en cuando al mismo Paul Valéry como sacerdote de la inmadurez, una cura descalzo y con pantalón curto.

Witold Gombrowicz, Contra los poetas


We hate poetry that has a palpable design upon us—and if we do not agree, seems to put its hand in its breeches pocket.


Keats

Um professor de literatura avisou-me que a vida não é só poesia. Perdoei à vida essa falha, mas, para Lerner, a poesia também falha por não ser Poesia. 

You can only compose poems that, when read with perfect contempt, clear a place for the genuine Poem that never appears.

A poesia é sempre falhanço (uns falham melhor do que outros), porque nunca consegue chegar a realizar o potencial da ideia de Poesia; esta ideia de poesia está na cabeça de Lerner e serve para atacar as ideias que ele tem na cabeça dele sobre o que vai na cabeça dos outros. 

Platão, um homem que tinha muitas ideias sobre Ideias, atacou a poesia e esse ataque pariu no jovem Lerner uma ideia muito curiosa: a poesia é importante. Percebi imediatamente o problema dele. Noto que, quando menciono que pratico parkour, as pessoas reagem com exasperação, condescendência ou indiferença. Eu não pratico mesmo parkour, mas fico muito ofendido. Talvez ficasse menos ofendido se pensasse que o que eles desprezam não é a modalidade, mas o falhanço em produzir o que o Parkour promete. E promete tanto, meu Deus! As pessoas em geral ignoram a importância de práticas que lhe são estranhas e a poesia é, não quero ofender ninguém, como outra prática qualquer. Lerner, um poeta, sente-se frustrado com o que a poesia é, não é, como é vista pelos outros e porque não é vista por ninguém. Um amigo meu diz que, uma vez, perdeu um jogo de damas que jogou contra si mesmo, mas há que reconhecer que isto é xadrez  a derrota tem outra dignidade.  

Alberto Pimenta, em O Silêncio dos Poetas, diz que as pessoas desconfiam mais dum poeta do que de um ladrão de bancos, porque estes normalmente são punidos. A suspeição que Lerner partilha e, ao mesmo tempo, deplora tem que ver com a noção que a linguagem privada a que a poesia aspira é, num contexto público, irrelevante. A frustração com o medium está ligada a esta ideia que só permite atribuir uma importância relativa à poesia. Mas e a Poesia? Ashberry, numa entrevista, disse: «I am an important poet, read by younger writers, and on the other hand, nobody understands me», o que parece vir ao encontro desta ideia de que o poeta não comunica, antes cria uma linguagem não-corrente que não pode ser traduzida para a linguagem corrente. Por outro lado, Juarroz diz que um poeta diz a verdade, quando pensa que está a lavar os dentes. Ficamos na mesma. Não é por acaso que os diálogos platónicos acabam sempre com mais perguntas do que respostas. Podia acabar com estes problemas todos se desistisse da Poesia e aceitasse a poesia, i.e., a Poesia é mero nome, flatus vocis, ou flato vocal, que me parece a melhor má tradução; por outro lado, podia aceitar que a poesia é tudo o que é o caso.

O meu primeiro contacto com Ben Lerner passou-se assim; depois comecei a ouvir falar em autoficção, um termo dos anos 70 usado para descrever uma moda recente que, de resto, sempre existiu. Lendo alguns artigos sobre o assunto, fica-se com a sensação que muita gente acredita que se inventou a primeira pessoa do singular. Na verdade, todos praticamos autoficção, mas não vamos falar de parkour outra vez. Ben Lerner, uma pessoa que me irritava, passou a ser a pessoa que me irrita associada a um termo que me irrita. Vejam bem os preconceitos que tive de superar para pensar em ler este livro.

O livro, francamente, é uma desilusão, porque não só não confirma os meus preconceitos  como até mostra um lado de Ben Lerner com que eu me identifico muito. Custou-me ler várias passagens, porque é muito difícil perdoar pessoas com defeitos tão ligeiramente diferentes dos nossos. 

Adam Gordon, o narrador, partilha as ideias de Ben Lerner, mas a ficção cria um contexto que as torna toleráveis. Logo na primeira cena importante do livro, vemos Adam a não compreender a reacção de um homem ao quadro The Descent from the Cross, de Rogier van der Weyden. 

Was he, I wondered, just facing the wall to hide his face as he dealt with whatever grief he’d brought into the museum? Or was he having a profound experience of art?

Não é mero filistinismo, é uma maneira de demonstrar em acto as dificuldades de traduzir, nos nossos termos, o que os outros sentem. Esta estranheza, a dificuldade de entender os outros é o livro. A estranheza geral é acentuada pela estranheza particular: Adam está num país estrangeiro (Espanha), numa cidade carregada de significados culturais que ele ignora (Madrid), usando uma língua que não domina, para acabar um projecto que ele não sabe como começar. É bastante significativo que ele comece por traduzir mal Llorca. Llorca é mais um poema do que um poeta, o mito sendo tão importante como a obra; e traduzir mal era inevitável e é, ao mesmo tempo, um acto criativo.

(“Under the arc of the sky” became “Under the arc of the cielo,” which became “Under the arc of the cello”).

O romance vai explorando as dificuldades de Adam em se adaptar e os momentos mais esclarecedores são de pura incerteza:

But most intensely love for that other thing, the sound-absorbent screen, life’s white machine, shadows massing in the middle distance, although that’s not even close, the texture of et cetera itself.

A necessidade que o narrador sente de entender tem que ver com a necessidade de ser entendido. As afectações, que ele reconhece nele e tenta encontrar nos outros, adensam o drama que ele vai experimentalmente encenando, criando a autoficção dentro da autoficção. As suas mentiras, poses, as drogas fazem parte do mesmo processo educativo, da procura de algo substancial. As relações amorosas com Isabel e Teresa são a dialéctica à espera de síntese. 

Teresa, que encarna a sofisticação das elites, diz-lhe que ele parece Jack Nicholson em The Passenger, um filme que ele finge ter visto: «I hadn’t seen The Passenger, a movie in which I starred.»

As semelhanças começam logo nas sobrancelhas.





Jack Nicholson é David Locke, um repórter que se encontra a documentar uma rebelião num país africano. A situação parece totalmente diferente , mas é semelhante, porque a incompreensão dos costumes, das atitudes acentuam uma incompreensão geral. David revolta-se quando está atolado no meio do deserto, depois dum incidente com guerrilheiros. A situação é desesperada, mas parece que David consegue entender que já não entende nada. Nada parece fazer sentido e as dunas, que parecem pinturas de memórias de um sonho, acrescentam ao absurdo da situação.



Volta ao hotel e vê que Robertson, um homem que conheceu ali, está morto. Aparece como um homem que perdeu, como Lerner, um jogo de xadrez contra si mesmo.


Robertson era um homem de certezas, dizia ele, e Locke um homem de dúvidas. Locke adopta a identidade de Robertson, mas não ganha certezas; apenas ganha uma data de problemas diferentes, quando descobre que Robertson era um traficante de armas e acaba a correr a Europa a fugir da história, da sua identidade, com Maria Schneider a fazer de anjo da história.



Acaba por não encontrar a vida da identidade que escolheu, mas encontra a mesma morte.

O filme é a versão radical do livro. Adam parece no fim aceitar que não é um impostor, que é um poeta, que pode entender os outros pelo que entende de si, e o resto é literatura.

Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós

Sem comentários:

Enviar um comentário